O BRASIL VOLTA A DESENVOLVER CARROS PARA O MUNDO

Escrito por Rogério Nottoli
Aengenharia automotiva brasileira construiu sua reputação combinando criatividade, capacidade de adaptação e velocidade de reação em um dos ambientes industriais mais desafiadores do mundo. O Chevrolet Sonic marca um novo estágio dessa trajetória. O SUV cupê compacto chega como reflexo da influência cada vez maior dos times sul-americanos dentro da estrutura global da GM.
O movimento está na estrutura que permitiu sua criação. O Sonic foi desenvolvido sob liderança da engenharia da GM América do Sul, combinando ferramentas virtuais, inteligência artificial, machine learning e integração global entre áreas que, até poucos anos atrás, trabalhavam de forma muito mais fragmentada. Mais do que acelerar um projeto, essa transformação alterou o papel da região dentro da montadora.
“Hoje nós somos responsáveis, do ponto de vista de execução e implementação, por todos os novos projetos da nossa região”, diz Ricardo Fanucchi, Diretor Executivo de Engenharia de Produto da GM América do Sul. A engenharia brasileira assumiu governança técnica sobre programas desenvolvidos para a América do Sul e para mercados de exportação. O Chevrolet Sonic nasce dentro dessa estrutura; como produto local, mas com ambição e método de desenvolvimento mundial.
O dado mais revelador esteja talvez longe do Sonic. Nos últimos anos, a GM exportou mais de 300 engenheiros brasileiros para centros globais da companhia. Não como intercâmbio temporário, mas como profissionais incorporados em posições permanentes de liderança e desenvolvimento técnico. “É motivo de orgulho para a gente, mas também prova da capacidade e da flexibilidade do engenheiro brasileiro”, analisa Fanucchi.
Existe uma razão prática para isso. Enquanto grandes polos globais operam em ambientes relativamente estáveis, os times sul-americanos aprenderam a trabalhar sob pressão constante: restrição de custos, volatilidade econômica, mudanças regulatórias e necessidade contínua de adaptação. “Somos criados na crise”, resume Fanucchi ao explicar a capacidade de reação desenvolvida pela engenharia da região.
Essa combinação passou a ter valor estratégico em uma indústria que já não consegue trabalhar nos ciclos tradicionais de desenvolvimento. Durante décadas, criar um automóvel consumia aproximadamente cinco anos. Hoje, segundo Fanucchi, a GM consegue desenvolver produtos em cerca de dois anos.
O Sonic levou pouco mais de três; prazo considerado extremamente agressivo dentro da indústria automotiva moderna.
A velocidade surge principalmente do ambiente virtual. Se no passado centenas de protótipos físicos eram construídos muito antes do lançamento, hoje grande parte do desenvolvimento acontece em simulações digitais. Segurança estrutural, ruído, vibração, integração eletrônica, aerodinâmica, durabilidade e comportamento dinâmico passaram a ser avaliados virtualmente antes mesmo da existência física do veículo.
Fabio Rua, Vice-Presidente de Políticas Públicas, Comunicação e ESG da GM América do Sul, resumiu essa transformação durante conversa com Fanucchi no GM Cast. “Quando eu cheguei à GM, os tempos de desenvolvimento pareciam demasiadamente grandes”, afirmou. “Hoje, novos projetos começam a ganhar forma em questão de meses”.
O mais interessante é que essa aceleração não parece ter reduzido ambição. Pelo contrário. Fanucchi descreve o Sonic como um projeto pensado desde o início para equilibrar eficiência industrial com impacto emocional. “Um dos principais objetivos do Sonic era ter um design absolutamente fantástico”, explica. A observação revela uma mudança importante dentro da indústria: engenharia já não trabalha apenas para viabilizar produto. Trabalha também para viabilizar experiência, percepção e desejo.
No Sonic, isso aparece na tentativa de integrar eficiência energética, refinamento acústico, dirigibilidade, conectividade e experiência de condução como partes inseparáveis do projeto. “A experiência do cliente ao dirigir o carro é um dos pontos fortes do Sonic”, afirma Fanucchi ao descrever conforto, silêncio de rodagem e comportamento dinâmico como prioridades da engenharia.
Até a eficiência energética passou a ser tratada como consequência direta do desenvolvimento técnico. Segundo Fanucchi, o Sonic alcança o melhor consumo rodoviário do segmento graças à combinação entre aerodinâmica, baixa resistência ao rolamento e eficiência do conjunto 1.0 turbo com injeção direta.
O Sonic mostra uma engenharia sul-americana cada vez mais próxima da concepção estratégica de produto. A região preserva sua força industrial, mas amplia sua influência como centro de inteligência, desenvolvimento e decisão. É uma mudança clara de posição no mapa global da engenharia.
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