É permitido sonhar acordado

Escrito por Rogério Nottoli

21 de agosto de 2026

OCadillac V-ONE não vai correr em Le Mans. Também não estará na vitrine de uma concessionária. É uma máquina bem mais rara. Um supercarro-conceito construído com a base do V-Series.R, o protótipo de competição da Cadillac, para colocar um motorista comum o mais perto possível da experiência de um piloto de endurance.

E perto, nessa história, significa muito perto.

O V-ONE usa o mesmo chassi de fibra de carbono produzido pela italiana Dallara, carroceria feita a partir dos mesmos moldes e o mesmo V8 aspirado de 5,5 litros do carro de corrida. A grande diferença aparece quando se pisa no acelerador.

Em Le Mans, o V-Series.R precisa obedecer ao regulamento. O V-ONE está livre das regras.

Por isso, enquanto o carro de competição tem sua potência controlada pela categoria, o conceito pode explorar mais o conjunto formado pelo V8 e pelo sistema híbrido. São cerca de 830 cv e ainda existe um botão capaz de liberar 134 cv elétricos adicionais nas retas.

“É o mais próximo que se pode chegar do carro de corrida”, garante Sean O’Shea, gerente de propulsão LMDh da Cadillac.

A ambição dos engenheiros ajuda a colocar essa frase em números: a Cadillac quer que o V-ONE seja capaz de virar uma pista a cerca de 10% do tempo obtido pelo V-Series.R. Para um automóvel que não precisa disputar troféus, é bastante sério.

160 horas para montar um motor

O V8 de 5,5 litros merece um capítulo à parte. Cada unidade exige aproximadamente 160 horas de montagem em Pontiac, Michigan, nos Estados Unidos. O trabalho fica nas mãos de especialistas acostumados a construir motores de competição.

É também esse V8 que produz uma das cenas mais interessantes do V-Series.R nas pistas. O Cadillac pode deixar os boxes silenciosamente, impulsionado pela eletricidade. Segundos depois, o oito-cilindros acorda.

O V-ONE preserva essa combinação de eletrificação e brutalidade mecânica. E faz isso dentro da mesma célula de sobrevivência de fibra de carbono homologada pela FIA utilizada no carro de corrida.

Por dentro, muda a conversa

Até aqui, quase tudo poderia estar em um box de competição. Quando se chega ao interior, a Cadillac começa a aparecer de outra maneira.

O V-ONE mantém o cockpit apertado e funcional de uma máquina de pista, mas troca parte da austeridade por materiais e acabamento que fazem sentido em um Cadillac.

Só o volante passou por cerca de 30 versões até chegar ao desenho definitivo. Muitos de seus comandos vieram diretamente do V-Series.R. O banco segue a arquitetura utilizada em carros GT3, mas foi pensado para oferecer melhor visibilidade ao motorista.

É um carro de corrida que aprendeu algumas regras de etiqueta.

A carroceria segue a mesma lógica. Em vez do envelopamento comum no automobilismo, o V-ONE foi pintado à mão.

A dianteira começa em prata e vai escurecendo até chegar ao azul Caspia na traseira. A inspiração está nas provas de endurance que começam durante o dia e atravessam a noite.

Há ainda pistas sobre Cadillacs que realmente chegarão às ruas. O V-ONE estreia a nova identidade visual da V-Series, e o desenho de suas rodas antecipa soluções previstas para futuros modelos de produção da divisão de alta performance.

Quanto custa?

Aqui começa a parte dolorosa.

A Cadillac não divulgou preço porque simplesmente não pretende vender o V-ONE. Ele existe como demonstração do que acontece quando a engenharia desenvolvida para competir recebe liberdade para brincar com as próprias regras.

A comparação dentro da Cadillac é interessante. Se o CELESTIQ representa até onde a marca pretende levar o luxo, o V-ONE mostra o outro extremo: até onde pode levar a performance.

E talvez seja melhor nem fazer a conta de quanto custaria reunir um chassi Dallara de fibra de carbono, um V8 de competição que leva 160 horas para ser montado, sistema híbrido, 830 cv, acabamento artesanal e engenharia de Le Mans em um único automóvel.

Por enquanto, basta saber que ele existe. Afinal, é permitido sonhar acordado.

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