A ARTE DE FAZER O CLIENTE VOLTAR

Escrito por Rogério Nottoli

30 de agosto de 2026

Há mais de um século, uma família do Texas descobriu uma das verdades mais valiosas do varejo: a arte de encantar o cliente. E saber que ele vai voltar.

A Sewell Automotive Companies começou sua história em 1911. Décadas depois, tornou-se uma referência no mercado de distribuição de automóveis nos Estados Unidos, construindo uma relação  especialmente conhecida com a Cadillac. Em 1957, abriu sua operação da marca em Dallas. O negócio cresceu, novas lojas vieram, gerações passaram e uma ideia permaneceu: vender um automóvel é apenas uma parte do trabalho.

A outra começa depois.

Em 1990, o dealer Carl Sewell Jr. fez algo pouco comum para um concessionário: escreveu um livro contando seus segredos.

Havia uma razão. Executivos, empresários e visitantes queriam entender o que acontecia naquela concessionária Cadillac de Dallas. Como uma empresa que vendia carros conseguia criar vínculos tão profundos com seus clientes? 

O título da obra dizia quase tudo: “Customers for Life — clientes para a vida inteira”, traduzido ao português.

O livro vendeu mais de 1 milhão de exemplares, foi traduzido para 19 idiomas e transformou a experiência de uma concessionária do Texas em referência global. Aquilo que funcionava entre carros, vendedores, oficinas e compradores passou a ser estudado por empresas de outros setores.

Mais de três décadas depois, o mais impressionante é perceber quanto o mundo mudou e quanto o princípio de Sewell resistiu.

Os carros ganharam eletrônica, conectividade e inteligência. A concessionária ganhou novos canais. A jornada de compra começou a caber na tela de um celular. Agora, a inteligência artificial entra na conversa. Mas existe algo que nenhuma dessas transformações tornou menos importante.

Todo cliente se lembra de como foi tratado.

 

O luxo do detalhe

 

A reputação da Sewell não foi construída sobre grandes gestos, mas sobre uma sucessão de pequenas decisões tomadas a favor do cliente.

Décadas depois de transformar o atendimento em filosofia de negócio, a Sewell continua colocando essas ideias em prática. Nas concessionárias do grupo, veículos de cortesia permitem que a manutenção não prejudique o dia do cliente. Horários ampliados e serviços expressos procuram adaptar a oficina à rotina das pessoas. Há lavagens gratuitas e até especialistas dedicados a ensinar os proprietários a aproveitar melhor as tecnologias de seus carros.

O mais interessante é que práticas criadas muito antes da era digital continuam atuais. A tecnologia mudou; a preocupação permanece a mesma: facilitar a vida de quem está do outro lado do balcão.

Há uma lógica por trás de tudo isso.

 A Sewell Cadillac não procura apenas cuidar do automóvel. Procura cuidar do tempo, da conveniência e da tranquilidade do cliente.

Essa é uma das ideias mais contemporâneas do livro Customers for Life. Encantar não significa necessariamente oferecer algo extraordinário. Muitas vezes significa retirar do caminho aquilo que incomoda, demora, confunde ou exige esforço desnecessário. É uma forma silenciosa de sofisticação.

E é justamente aí que uma história construída em torno da Cadillac no Texas deve encontrar eco em uma concessionária Chevrolet no Brasil.

Os carros, os públicos e as expectativas podem ser diferentes. A vontade de ser bem tratado é universal. Quem compra um Onix espera atenção. Quem deixa uma Tracker para revisão quer seu tempo respeitado. Quem depende de uma S10 para trabalhar precisa de previsibilidade. E uma família que escolhe seu próximo carro procura algo que nenhuma ficha técnica consegue oferecer: confiança.

O encantamento raramente depende do extraordinário. Muitas vezes, nasce da excelência com que se faz o essencial.

 

O poder de ser lembrado

Existe ainda uma diferença decisiva entre satisfazer e encantar um cliente. Satisfação cumpre uma expectativa. Encantamento deixa uma lembrança. Às vezes, surge de uma ligação alguns dias depois da entrega. Do vendedor que reconhece alguém que não via há anos. Do consultor que explica uma função do carro sem pressa. ou simplesmente da atenção dada à criança que acompanhou os pais. 

Nenhum desses gestos, isoladamente, parece capaz de transformar um negócio. A força está na repetição. Quando essa atenção deixa de depender da boa vontade ocasional de uma pessoa e passa a fazer parte da cultura da empresa, o detalhe deixa de ser detalhe. Torna-se reputação. 

E reputação produz algo particularmente valioso no varejo: preferência.

Preço pode ser comparado em segundos. Uma condição comercial pode ser igualada. Produtos concorrentes podem se aproximar em desempenho, tecnologia e equipamento. Preferência é outra coisa. 

Carrega memória. É o cliente que retorna à mesma oficina porque confia em quem está do outro lado do balcão. Que procura o mesmo vendedor anos depois. Que recomenda a concessionária antes mesmo de alguém perguntar onde comprar. Que, diante de duas propostas semelhantes, escolhe aquela empresa porque já sabe o que encontrará depois que assinar.

Carl Sewell percebeu cedo que esse “depois” valia tanto quanto a própria venda. É quando a negociação termina que o cliente começa, de fato, a descobrir que tipo de relação construiu com aquela empresa. Se a atenção desaparece depois da assinatura, havia apenas uma transação. Se permanece, começa a existir confiança.

Talvez por isso Customers for Life tenha atravessado décadas. O livro fala de atendimento, mas sua ideia central é maior: uma empresa começa a conquistar a próxima venda pela maneira como trata o cliente quando já não precisa mais convencê-lo a comprar.

 

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