O Brasil diante do próprio Brasil

Escrito por Rogério Nottoli
OBrasil já foi explicado pela cordialidade, pelo patrimonialismo, pela miscigenação, pelo futebol e pelo samba. Como nenhuma dessas teorias encerrou o assunto, Felipe Nunes resolveu recorrer a quase 10 mil brasileiros. É uma amostra razoável. Reunir todos eles para um almoço de domingo, porém, continuaria sendo impossível.
Brasil no Espelho: um livro para entender o Brasil e os brasileiros parte de uma pergunta simples e ambiciosa: quem somos, afinal? A resposta ocupa pouco mais de 200 páginas, combina estatística com interpretação e entrega um País bem mais interessante que suas caricaturas.
Felipe Nunes é cientista político, professor da Fundação Getulio Vargas e sócio-fundador da Quaest. A obra surgiu de uma pesquisa encomendada pela Globo e realizada entre novembro e dezembro de 2023. Foram ouvidas 9.994 pessoas com mais de 16 anos, em 340 municípios dos 26 estados e do Distrito Federal. A amostra levou em consideração região, sexo, idade, escolaridade e renda familiar.
É o tipo de levantamento que serve para testar certezas; sobretudo aquelas que adquirimos sem lembrar exatamente onde.
O primeiro achado é quase uma unanimidade. Para 96% dos brasileiros, a família é a coisa mais importante da vida. Em uma escala de zero a dez, ela recebe nota média de 9,2, desempenho que causaria inveja a qualquer empresa, governo ou seleção brasileira.
A família também domina as duas extremidades da imaginação nacional. “Ver a família feliz” é o principal sonho de 19% dos entrevistados, à frente de ter saúde, com 17%, e conquistar a casa própria, com 11%. Perder a família, por sua vez, é o maior medo de 32%. Fome, desemprego, pobreza e perda da moradia, reunidos em outra resposta, ficam com 13%.
O brasileiro deseja a felicidade da família mais do que a riqueza. E teme perdê-la mais do que teme a ruína material. Isso ajuda a explicar muito do País: as decisões compartilhadas, a importância das relações pessoais, o esforço para oferecer aos filhos uma vida melhor e até a maneira como se compra uma casa, escolhe-se um emprego ou financia-se um automóvel.
A força da instituição convive com uma definição mais aberta de seu significado. Para 90% dos entrevistados, família é formada pelo amor, independentemente de seu modelo. O Brasil preserva a ideia enquanto modifica sua forma.
A fé ocupa espaço igualmente vasto. Para 96%, Deus está no comando de suas vidas. A afirmação oferece algum alívio e também levanta uma questão inevitável sobre quem estaria cuidando do restante da administração.
Família e religião compõem a base mais sólida do retrato. Ao redor delas aparece um brasileiro conservador em muitos valores, apegado às tradições e convencido de que o esforço individual pode melhorar sua vida. Surge também um cidadão cansado, inseguro e desconfiado. Ele acredita em Deus, conta com a família e mantém prudente distância do resto.
Essa desconfiança talvez seja um dos dados mais úteis para quem trabalha com pessoas. Em sociedades nas quais as instituições inspiram pouca segurança, a reputação deixa de ser um detalhe. A palavra cumprida, a explicação clara e a presença depois da venda adquirem valor econômico para uma concessionária. Antes de confiar em sistemas, o brasileiro tende a confiar em pessoas.
Há também orgulho. Apesar das crises, dos conflitos e da conhecida disposição nacional para falar mal do próprio País, 85% sentem orgulho do Brasil. As belezas naturais e a música estão entre as razões. A nação talvez tenha deixado de se definir apenas pelo futebol e pelo Carnaval, mas continua reconhecendo em sua cultura uma espécie de patrimônio comum.
É uma relação semelhante à que muitas pessoas mantêm com a família: críticas são permitidas, desde que venham de dentro.
O brasileiro encontrado no livro acredita no mérito e no trabalho, mas vive cercado pela sensação de que o terreno está inclinado. Quer avançar pelos próprios meios, embora perceba que as oportunidades estão distribuídas de forma desigual. Defende o esforço individual e, ao mesmo tempo, espera que alguém organize minimamente a estrada.
O livro mostra, assim, um País menos ideologicamente arrumado do que gostariam os especialistas em etiquetas. Há conservadores com posições econômicas associadas à esquerda, progressistas desconfiados das instituições, defensores da intervenção do Estado que criticam programas sociais e individualistas que colocam a família acima de tudo.
A incoerência, vista de perto, costuma ser apenas humanidade.
Para organizar essa diversidade, Nunes identifica nove grandes grupos de valores e interesses. Entre eles estão militantes de esquerda, representantes da extrema direita, conservadores cristãos, liberais sociais, progressistas, integrantes do universo do agronegócio, empresários, empreendedores individuais e brasileiros das classes D e E.
A classificação reforça uma conclusão importante: há vários países dentro do Brasil. Em certos temas, uma parte da população se aproxima de sociedades muito conservadoras. Em outros, grupos brasileiros revelam valores comparáveis aos de países liberais. As duas realidades convivem, discutem nas redes sociais e, algumas vezes, dividem a mesma residência.
Talvez o capítulo mais desconcertante seja aquele dedicado ao conhecimento. A pesquisa apresentou perguntas objetivas sobre a realidade nacional. Quarenta e dois por cento dos participantes deixaram de acertar qualquer uma delas, mas apenas 6% imaginavam ter zerado o teste.
O problema, portanto, ultrapassa o desconhecimento. É o desconhecimento acompanhado de confiança.
Vivemos em uma época na qual a convicção frequentemente chega antes da informação. As pessoas procuram conteúdos que confirmem suas crenças, compartilham o que combina com sua visão de mundo e tratam a dúvida como fraqueza. O livro sugere que o brasileiro sabe menos do que pensa e pensa saber mais do que sabe. Seria apenas engraçado se esse mecanismo ficasse fora das eleições, das empresas e das decisões cotidianas.
Esse talvez seja um dos maiores méritos de Brasil no Espelho. A obra oferece dados, mas também distribui pequenas doses de humildade. Lembra que conhecer o Brasil exige alguma disposição para abandonar o Brasil inventado por nossas próprias bolhas.
Para os empresários da Rede Chevrolet, a leitura tem valor que vai além do setor automotivo. Quem faz negócios em um país continental precisa compreender o que move as pessoas que vivem nele. Dados de vendas mostram comportamentos. Valores ajudam a explicar suas causas.
A família, a fé, o desejo de vencer pelo próprio esforço, o medo, a insegurança, a desconfiança e o orgulho nacional entram nas lojas, participam das negociações, influenciam equipes e moldam relacionamentos. Às vezes aparecem em números. Na maior parte do tempo, chegam disfarçados de conversa.
Felipe Nunes consegue explicar o Brasil aos brasileiros sem fingir que encontrou uma definição final. Seu livro funciona porque o espelho permanece aberto a contradições. O País que aparece nele é conservador e mutável, individualista e familiar, desconfiado e esperançoso, orgulhoso e insatisfeito.
Em outras palavras, parece bastante conosco.
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