O SEGREDO PARA TRABALHAR MELHOR

Escrito por Rogério Nottoli
Uma coisa ruim pode continuar sendo ruim e, ainda assim, revelar alguma coisa boa. Basta olhar por um outro ângulo.
Um erro ensina. Uma venda perdida mostra onde a conversa falhou. Uma dificuldade obriga a procurar uma saída que, em circunstâncias normais, talvez jamais aparecesse. O problema permanece. O que muda é o olhar.
Shawn Achor construiu boa parte de seu trabalho em torno dessa mudança de perspectiva. Psicólogo americano e autor de O Jeito Harvard de Ser Feliz, ele estuda como a maneira pela qual interpretamos a realidade interfere na forma como trabalhamos, aprendemos, criamos e enfrentamos dificuldades.
Sua tese parte de uma inversão provocadora: passamos a vida acreditando que o sucesso nos fará felizes, quando a felicidade também pode nos ajudar a ter sucesso.
A lógica tradicional é conhecida. Trabalhe mais. Alcance a meta. Consiga a promoção. Ganhe mais. Seja reconhecido. Então, finalmente, você ficará feliz.
Só existe um problema nessa conta: o “então” quase nunca chega.
A promoção vem e logo aparece o próximo cargo. A meta é batida e outra toma seu lugar. O salário aumenta, mas nossa referência também muda. Cada conquista que deveria encerrar a corrida acaba inaugurando outra.
O sucesso tem uma linha de chegada móvel.
É nesse ponto que Shawn Achor propõe inverter a ordem. Em vez de tratar a felicidade como recompensa por um bom desempenho, ele a coloca entre as condições que podem favorecê-lo. Um estado mental positivo, segundo seus estudos, pode contribuir para a concentração, a criatividade, a aprendizagem e a capacidade de encontrar novas soluções.
Shawn Achor chama isso de “vantagem da felicidade”.
A expressão pode parecer simples demais para um ambiente acostumado a planilhas, metas e indicadores. Mas o conceito está longe de sugerir que basta pensar positivo para os problemas desaparecerem.
Eles vão continuar lá.
O cliente ainda diz não. Uma negociação importante pode fracassar. Um projeto dá errado. O prazo fica mais curto. A concorrência avança. Há manhãs em que o trabalho simplesmente não funciona como deveria.
A questão é o que fazemos depois.
Uma equipe pode transformar uma venda perdida no assunto do dia inteiro. Repassar a conversa inúmeras vezes, procurar culpados e permitir que uma derrota contamine as próximas negociações.
Ou pode olhar para a mesma venda e perguntar: o que ela está nos mostrando?
Talvez o preço tenha sido mal explicado. Talvez ninguém tenha entendido a verdadeira necessidade do cliente. Talvez o concorrente tenha oferecido algo melhor. Talvez a abordagem precise mudar.
A venda continua perdida.
Mas deixou alguma lição.
Essa diferença é importante porque mudar o ângulo não significa mudar os fatos. Significa ampliar aquilo que conseguimos enxergar.
É como acender outra luz sobre a mesma cena.
Grandes mudanças nem sempre chegam fazendo barulho. Às vezes começam quando a atenção passa a registrar aquilo que antes era ignorado. Se o cérebro passa o dia procurando apenas erros, ameaças e problemas, ficará muito bom em encontrá-los. Se também aprende a perceber avanços, possibilidades e soluções, aumenta seu repertório diante das dificuldades.
O mundo permanece o mesmo. A leitura fica maior.
Essa ideia interessa especialmente ao trabalho porque empresas são ambientes construídos em torno do que falta. Falta vender mais. Falta atingir a meta. Falta melhorar a margem. Falta conquistar o cliente. Assim que um objetivo é alcançado, outro aparece.
Há uma função importante nisso. Nenhuma empresa avança satisfeita apenas com aquilo que já conquistou. O risco começa quando olhar para frente significa perder a capacidade de enxergar o que já está funcionando.
Reconhecer uma pequena vitória não diminui a ambição.
Pode dar energia para a próxima.
Agradecer alguém por uma colaboração não reduz a cobrança.
Pode tornar a equipe melhor para enfrentá-la.
Encontrar um aprendizado numa derrota tampouco transforma derrota em vitória.
Transforma experiência em informação.
Esse é o ponto mais interessante do trabalho de Shawn Achor. Felicidade, nessa perspectiva, deixa de ser o prêmio que alguém recebe depois de finalmente colocar a vida em ordem. Passa a fazer parte dos recursos usados para lidar justamente com uma vida que nunca estará completamente em ordem.
O trabalho continuará trazendo problemas. Alguns pequenos. Outros grandes. Alguns serão resolvidos. Outros simplesmente terão de ser atravessados.
Nem sempre será possível encontrar algo bom no que aconteceu.
Mas quase sempre haverá mais de uma maneira de olhar para o que rolou depois.
E, às vezes, mudar o ângulo é o começo de mudar o resultado.
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