O Automóvel começa a pensar

Escrito por Rogério Nottoli
Ainteligência artificial (IA) vive um ponto de inflexão histórico. O que antes parecia uma promessa confinada aos laboratórios agora se espalha por todas as dimensões da vida humana — e, pela primeira vez, ganha mais força sobre quatro rodas.
Em Nova York, durante o evento GM Forward, a montadora fez uma declaração aberta de como a escala industrial, a expertise em software e a IA estão se fundindo para transformar o automóvel em algo radicalmente novo: além do meio de transporte, um assistente inteligente, capaz de aprender, conversar e evoluir.
A presidente e CEO Mary Barra, ao lado de outros executivos, revelou como essa convergência de tecnologias — que abrange IA, robótica, energia e autonomia — está redesenhando o DNA da GM e preparando o terreno para uma nova era do transporte. A companhia deixou claro que se trata de desenvolver máquinas cognitivas, veículos que percebem o ambiente, interpretam o comportamento do motorista e reagem com precisão quase humana.
Um dos passos mais significativos nesse caminho é o avanço da condução sem tirar os olhos do volante, tecnologia que a GM pretende lançar em 2028 com o SUV elétrico Cadillac Escalade IQ. O sistema é uma evolução do Super Cruise, já testado em larga escala: são 965 mil km mapeados e mais de 1,1 milhão de km percorridos sem um único acidente atribuído ao software.
A tecnologia de autonomia se apoia em uma base robusta de dados, sensores e algoritmos que aprendem com cada nova viagem. Esse acúmulo de experiência é reforçado pelas estruturas de validação da Cruise, que adicionam mais de 8 milhões de km de condução totalmente autônoma. A GM, além de estar criando sistemas de direção automática, está desenvolvendo inteligência sobre rodas, treinada em escala continental.
Essa visão também se manifesta em outro eixo da revolução: a comunicação. Os veículos da GM passam a integrar a IA conversacional do Google Gemini, permitindo que motoristas conversem com seus carros de maneira natural, sem comandos rígidos ou frases pré-programadas. Essa nova interação vai além da conveniência. Trata-se de um salto cognitivo: o automóvel será capaz de compreender contexto, aprender preferências e oferecer respostas personalizadas.
No futuro, a GM lançará sua própria IA, conectada ao sistema OnStar, que ajustará o funcionamento do carro de acordo com o estilo de direção, hábitos e interesses do condutor. Essa inteligência, com a devida autorização do usuário, poderá explicar como antecipar falhas mecânicas antes que se tornem problemas ou sugerir o restaurante ideal durante uma viagem, por exemplo.
Para dar suporte a essa nova era de aprendizado contínuo, a GM está construindo um novo cérebro automotivo. A partir de 2028, a empresa lançará uma plataforma de computação centralizada — também estreando no Cadillac Escalade IQ — que unificará todos os sistemas do veículo em um único núcleo digital.
A reformulação é profunda: o carro deixa de operar por módulos independentes e passa a funcionar como um sistema nervoso integrado, no qual propulsão, direção, infoentretenimento, segurança e energia trocam dados em tempo real. Essa nova arquitetura entrega 10 vezes mais capacidade de atualização via internet, 1.000 vezes mais largura de banda e 35 vezes mais desempenho de IA, garantindo que o carro continue evoluindo muito tempo depois de sair da concessionária.
Mas a evolução da GM começa nas fábricas, onde a robótica e o aprendizado de máquina estão redefinindo o processo de produção. No Autonomous Robotics Center (ARC), em Warren, Michigan — e em seu laboratório em Mountain View, Califórnia — mais de 100 engenheiros e especialistas treinam sistemas robóticos com décadas de dados industriais: telemetria, métricas de qualidade e informações de sensores coletadas de milhares de robôs.
Com isso, a GM cria uma IA capaz de aprender a cada ciclo de montagem, corrigindo falhas, otimizando fluxos e antecipando problemas antes que ocorram. O resultado é uma fábrica cognitiva, onde robôs colaborativos — os chamados cobots — trabalham lado a lado com humanos, elevando a segurança e a eficiência nas linhas de montagem.
O avanço da inteligência das máquinas também redefine a relação entre energia e mobilidade. Hoje, a maioria dos novos veículos elétricos da GM já pode funcionar como fonte de energia de reserva para residências devidamente equipadas — e, em breve, poderão até devolver eletricidade à rede pública. A empresa planeja lançar, já em 2026, o Sistema Residencial de Energia GM, combinando carregamento bidirecional, bateria fixa e integração com energia solar.
Essa solução será oferecida inicialmente em regime de leasing para proprietários de veículos elétricos da marca e, depois, estendida a outros clientes interessados em autonomia energética. Tudo isso será controlado por um aplicativo inteligente, capaz de monitorar o consumo, otimizar horários de carregamento e participar de programas de veículo para rede (V2G), criando uma malha energética descentralizada e inteligente.
Em conjunto, essas inovações representam um ataque coordenado à fronteira entre homem e máquina. A GM incorpora percepção, memória e aprendizado ao automóvel. Com IA, robótica avançada e uma base de computação centralizada, a empresa inaugura uma geração de veículos que pensa e responde, que evolui com o tempo e se molda ao comportamento do condutor.
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