AGM prepara uma revolução técnica e estratégica no mercado de veículos elétricos — e ninguém parece prestar a devida atenção. Em meio à corrida por mais autonomia, menor custo e produção em larga escala, a montadora norte-americana avança silenciosamente com a bateria LMR, sigla para Lithium Manganese Rich (lítio com alto teor de manganês). Trata-se de uma tecnologia química promissora, que desde os anos 1990 vem sendo estudada, mas que, até agora, jamais havia sido aplicada de forma viável na indústria automotiva.
O projeto ganhou fôlego real dentro do Wallace Battery Cell Innovation Center, em Warren, no estado de Michigan, EUA, onde engenheiros liderados por Kushal Narayanaswamy enfrentaram um duplo desafio: solucionar a tradicional baixa longevidade das células LMR e resolver a perda progressiva de capacidade energética, que inviabilizava sua adoção em carros de produção.
Após quase uma década de pesquisa, esses entraves foram eliminados com a aplicação de novas formulações químicas, revestimentos especiais e um processo de fabricação mais robusto. O resultado? Uma célula com desempenho comparável às atuais baterias de alto teor de níquel, mas com custo drasticamente inferior. “As baterias LMR são o resultado de uma década de desenvolvimento”, afirma Narayanaswamy. “Conseguimos manter a densidade energética alta com uma química mais barata e abundante”.
Hoje, a GM estima que as novas baterias LMR entreguem até 33% mais energia do que as baterias LFP (lítio- ferro-fosfato), amplamente utilizadas em modelos elétricos de entrada, principalmente por sua proposta de menor custo. O diferencial da LMR, no entanto, é oferecer essa vantagem energética com uma química mais simples e abundante. Enquanto as baterias tradicionais usam cerca de 85% de níquel, 10% de manganês e 5% de cobalto, a nova composição da GM inverte essa lógica: aproximadamente 65% de manganês, 35% de níquel e quase nada de cobalto.
Isso é uma solução técnica e também uma resposta geopolítica e ambiental. O manganês é barato, amplamente disponível e não está sujeito à mesma instabilidade de suprimento que o cobalto, cuja mineração é altamente concentrada em países com questões éticas e instabilidade política.
A inovação, porém, não para na química. A GM apostou também na mudança do formato físico das células. Em vez do tipo “pouch”, que lembra um sachê flexível e é hoje o mais comum nas baterias Ultium, a nova célula LMR terá formato prismático, uma estrutura retangular rígida que oferece inúmeras vantagens para montagem e integração em veículos maiores, como SUVs e picapes. Isso permite reduzir em até 75% o número de peças por módulo de bateria e cortar pela metade os componentes do sistema, o que impacta diretamente na eficiência de produção, confiabilidade e manutenção.
Os testes são robustos: a GM já percorreu o equivalente a 2,2 milhões de quilômetros com protótipos em diferentes tamanhos e formatos, simulando as mais diversas condições de uso. A produção em escala está prevista para 2028, nos Estados Unidos, através da Ultium Cells, joint venture entre a GM e a LG Energy Solution. A meta é clara: ser a primeira montadora a utilizar essa tecnologia de forma comercial em veículos de grande porte — e oferecer ao mercado EVs um custo que finalmente pode disputar com modelos a combustão.
Há algo maior em jogo. A introdução da LMR significa uma mudança de paradigma. Com o avanço dessa bateria, três caminhos disruptivos se abrem de forma clara: o primeiro é a democratização da autonomia, tornando veículos elétricos acessíveis com alcance real para viagens longas, algo que hoje ainda é restrito a modelos premium.
O segundo é a reconfiguração da geopolítica dos materiais críticos, reduzindo a dependência de cadeias de suprimento instáveis e ambientalmente críticas. E o terceiro é a criação de uma nova geração de veículos modulares, mais simples, rápidos de montar e com menos pontos de falha, graças à estrutura prismática.
A GM está redesenhando o futuro com uma estratégia que combina química, engenharia e pragmatismo industrial. “Não é só uma nova célula”, resume Narayanaswamy. “É uma nova forma de pensar sobre custo, escala e alcance no mercado de elétricos”. A LMR, ao que tudo indica, não será apenas uma nova bateria no portfólio da GM. Pode ser o que faltava para que a mobilidade elétrica, enfim, ganhe as ruas de forma ampla, viável e irreversível. E quando isso acontecer, provavelmente não será com um grande alarde — mas com a assinatura silenciosa da engenharia bem feita.
Artigos relacionados
Relacionados
O HOMEM QUE ASSUME O VOLANTE
homas Owsianski já está à frente da presidência e da direção- geral da operação da General Motors na América do Sul. Ele assume o comando em um momento em que a companhia atravessa um processo contínuo de...
A ARTE DA MEMÓRIA
á momentos em que a lembrança deixa de ser lembrança e volta a ter motor. No Campo de Provas da Cruz Alta, em Indaiatuba, o som que corta o ar não vem de um lançamento, mas de carros que já fizeram história. O Opala...
GM JÁ É CANDIDATA A PROTAGONISTA DA F1
e você parar para pensar, faltam pouquíssimos dias para a GM iniciar sua história na Fórmula 1. Está marcado: a Cadillac Team, resultado da parceria entre a montadora norte-americana e a britânica TWG Motorsports,...


