Matéria especial: Você lembra como era antes da IA?

Escrito por Rogério Nottoli
Nem faz tanto tempo assim. Mas a inteligência artificial já se tornou uma espécie de assistente pessoal. Daquelas disponíveis a qualquer hora, que ajudam a escrever um e-mail, organizar uma apresentação, analisar números, pesquisar um assunto ou colocar alguma ordem naquela ideia que ainda estava meio bagunçada na nossa cabeça.
A gente se acostumou rápido.
Rápido a ponto de parecer estranho lembrar como trabalhava antes dela.
Você lembra?
Quando aparecia um problema e, por alguns minutos, a única pessoa disponível para resolvê-lo era você.
Você pensava.
Tentava.
Errava.
Perguntava para alguém.
Juntava duas coisas que aparentemente não tinham relação.
E, às vezes, encontrava uma terceira ideia muito melhor.
A IA encurtou brutalmente esse caminho. E isso é ótimo.
Mas talvez estejamos entrando agora na parte mais interessante dessa história: depois de aprender a usar inteligência artificial, precisamos aprender a trabalhar com ela.
Parece a mesma coisa.
Não é.
A máquina tem velocidade. Processa informações, compara alternativas, encontra padrões, organiza dados e produz possibilidades em segundos.
Nós temos outra matéria-prima.
Experiência. Intuição. Curiosidade. Sensibilidade. Repertório. Conhecimento das pessoas.
E criatividade.
É quando essas duas inteligências se encontram que a coisa fica realmente interessante.
Pense numa concessionária Chevrolet.
A IA pode conhecer cada detalhe técnico de um veículo.
O consultor conhece e entende o cliente.
Quando alguém pergunta pelo tamanho do porta-malas, por exemplo, talvez não esteja interessado em litros. Pode estar pensando no carrinho do bebê, no cachorro, nas malas das férias ou na viagem que faz todo fim de semana.
A máquina entrega o dado.
A pessoa entende o significado.
E ambos podem se ajudar.
A concessionária já começou a mudar
Essa transformação já saiu do discurso.
Hoje, o ecossistema Chevrolet permite que o cliente consulte estoques, simule financiamento e avance na compra digitalmente pelo Shop.Click.Drive. Pelo myChevrolet, já é possível acompanhar condições do veículo, receber alertas, fazer diagnósticos e agendar serviços na Rede.
E a IA começa a entrar diretamente nessa jornada. A GM já trabalha com inteligência artificial aplicada à qualificação de leads, encaminhamento de oportunidades, acompanhamento de clientes, recuperação de contatos e melhoria da conversão em vendas e pós-venda.
Agora imagine os próximos passos.
Uma IA capaz de ajudar o vendedor a entender melhor cada oportunidade antes mesmo do primeiro contato.
Identificar quais clientes estão mais próximos de trocar de carro.
Sugerir o momento certo para uma abordagem.
Ajudar a construir uma oferta de acordo com o perfil daquela pessoa.
Perceber oportunidades de pós-venda.
Antecipar necessidades de manutenção.
Cruzar informações que hoje estão espalhadas por diferentes sistemas.
Ou entregar ao gerente, pela manhã, não cinquenta páginas de números, mas cinco coisas que merecem a atenção naquele dia.
Não significa uma concessionária com menos gente.
Pode significar uma concessionária com gente gastando menos tempo procurando informação e mais tempo fazendo aquilo que gente sabe fazer muito bem: entender gente.
E aqui a criatividade ganha importância.
Imagine dois profissionais da Rede Chevrolet diante da mesma IA.
Um pede:
“Crie uma ação para aumentar as vendas.”
O outro conta o que ouviu dos clientes naquela semana, mostra os números da loja, explica uma dificuldade percebida pelos vendedores e pergunta como tudo aquilo poderia ser combinado numa ação diferente.
A ferramenta é a mesma.
O resultado provavelmente não será.
Porque inteligência artificial responde.
Criatividade pergunta.
Por isso, o repertório continua valendo muito.
Observe outras lojas. Converse com clientes. Escute a oficina e o pós-venda. Veja como um hotel recebe seus hóspedes, como um restaurante resolve uma espera, como outra empresa explica um produto complicado.
Depois leve essas referências para a IA.
Pergunte.
Misture.
Teste.
Discorde.
Jogue fora a primeira resposta.
Peça outra.
Talvez uma das competências profissionais mais importantes dos próximos anos seja justamente essa: saber provocar a inteligência artificial.
Uma nova dupla de trabalho
A própria GM já mostrou para onde essa relação pode caminhar. Em 2026, anunciou a chegada do Google Gemini a milhões de veículos nos Estados Unidos e prepara um assistente próprio, alimentado por dados dos veículos, para oferecer uma experiência ainda mais integrada.
O carro está ficando mais inteligente.
A concessionária também.
E nós estamos aprendendo qual será nosso lugar nessa relação.
Talvez o acordo seja mais simples do que parece.
A máquina amplia.
A pessoa direciona.
A máquina acelera.
A pessoa escolhe.
A máquina encontra padrões.
A pessoa percebe exceções.
A máquina oferece possibilidades.
A pessoa dá sentido.
No futuro, ter acesso a uma inteligência artificial extraordinária provavelmente será comum.
A diferença estará na criatividade de quem estiver conversando com ela.
Porque a IA pode ter milhões de respostas.
Ainda precisamos ser bons o bastante para fazer a pergunta que ninguém fez.
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