Confiança por conta da casa

Escrito por Rogério Nottoli
Repare nesta cena: o motorista entra devagar, atravessa uma espécie de portal e, em poucos segundos, recebe um raio-X do carro. Pneus, carroceria e parte inferior do veículo são examinados por câmeras e inteligência artificial. Não há desmontagem. Nem fila de oficina.
Também não há conta para pagar.
O LaFontaine Automotive Group começou a instalar esse sistema em suas concessionárias no estado norte-americano de Michigan. A primeira unidade entrou em funcionamento na LaFontaine Buick GMC Highland. O grupo também representa a Chevrolet em diferentes cidades do estado.
A inspeção é gratuita e está disponível até para quem comprou o automóvel em outro lugar ou dirige uma marca que a empresa não representa.
O equipamento, desenvolvido pela UVeye, procura desgaste nos pneus, danos externos, vazamentos e possíveis problemas em áreas que dificilmente aparecem numa inspeção rápida. Segundo seus desenvolvedores, a tecnologia alcança 96% de precisão. A proposta é formar a primeira rede estadual de inspeções veiculares gratuitas por inteligência artificial dos Estados Unidos.
A novidade impressiona. Mas o scanner não é a parte mais interessante da história.
O que merece a nossa atenção é a inversão da lógica comercial.
A concessionária não exige uma compra para começar a cuidar do cliente. Primeiro entrega uma informação útil. Ajuda o motorista a conhecer melhor o próprio carro. Pode evitar um pneu comprometido antes de uma viagem, revelar um dano escondido na compra de um seminovo ou indicar algo que precisa ser examinado com mais atenção.
Só depois aparece uma possibilidade de negócio.
É uma forma inteligente de reduzir uma das maiores barreiras da manutenção automotiva: a desconfiança. O problema deixa de ser apenas explicado por alguém atrás de um balcão e passa a ser mostrado em imagens. A conversa entre consultor e cliente começa com uma evidência compartilhada.
A inteligência artificial, nesse caso, não substitui o profissional. Ela melhora o ponto de partida. A máquina enxerga e registra. A equipe interpreta, orienta e transforma a descoberta em decisão segura.
Existe ainda um segundo ganho. Ao abrir o serviço para qualquer motorista, a concessionária deixa de depender apenas de quem já está procurando um carro ou precisa realizar uma revisão. Ela cria um novo motivo para ser visitada.
Ela passa a receber pessoas que poderiam permanecer fora do radar da empresa por anos. Cada inspeção produz contato, informação e, principalmente, uma pequena demonstração de competência. Mesmo quando não há reparo a fazer, fica a lembrança: aquele lugar ajudou sem empurrar uma venda.
Isso é mais valioso do que parece.
Boa parte das empresas tenta conquistar confiança depois de apresentar uma proposta. O projeto de Michigan muda a ordem. A confiança começa a ser construída antes de existir uma negociação.
Nem toda concessionária precisa instalar um portal com câmeras e inteligência artificial para aplicar essa ideia. O princípio cabe em ações mais simples: avaliação preventiva antes de viagens, orientação sobre pneus, pequenos diagnósticos, encontros sobre segurança, explicações claras sobre tecnologias ou serviços que facilitem a vida de quem ainda não é cliente.
A inovação está na generosidade da estratégia.
Levar mais pessoas até a concessionária sempre foi um desafio do varejo. A resposta pode estar em criar algo que valha a visita mesmo quando o cliente ainda não pretende comprar.
A primeira venda pode esperar.
A primeira entrega de valor, não.
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