O TREINAMENTO VIROU PARTE DO PRODUTO

Escrito por Rogério Nottoli
Oprimeiro contato da Rede Chevrolet com o Sonic aconteceu antes de o carro chegar às lojas. Em um resort no interior paulista, vendedores, gerentes e equipes de pós-venda passaram dias alternando entre salas fechadas, pistas de teste e sessões de imersão desenvolvidas para um objetivo específico: preparar as concessionárias para um segmento no qual a GM ainda não atuava diretamente no Brasil.
O treinamento realizado na cidade de Tuiuti foi tratado como etapa do próprio lançamento. A decisão faz sentido. O Sonic entra no setor mais disputado da indústria automotiva nacional, onde praticamente toda grande montadora já opera com algum grau de consolidação. “Estamos falando de um segmento superimportante para o mercado, onde os clientes estão buscando exatamente esse perfil de produto”, afirma Tânia Marotti, Supervisora da Universidade Chevrolet, que organizou a capacitação.
A ambição da GM ficou clara desde a abertura da qualificação. Em vídeo exibido às equipes de vendas e pós-vendas, Kleusner Lopes, Diretor Comercial da GM América do Sul, resumiu o espírito do projeto em uma frase repetida ao longo do evento: “2026 é o ano de ganhar juntos”. O slogan importa pelo que revela. O objetivo da Chevrolet não é apenas entrar no setor de SUVs compactos. É disputar liderança em um território onde a fidelidade do consumidor é cada vez menor e a concorrência, cada vez mais semelhante.
O treinamento foi dividido em cinco módulos. Um deles analisava o posicionamento do Sonic dentro do mercado de SUVs. Outro colocava o carro frente a frente com concorrentes diretos. Havia ainda sessões dedicadas à jornada do cliente, ao comportamento do vendedor e às experiências práticas de direção, talvez a parte mais relevante do processo.
Em um segmento tão competitivo, o cliente chega ao showroom com fichas, vídeos e opiniões na cabeça. O consultor de vendas precisa ir além da lista de equipamentos; precisa saber traduzir o carro em sensação. Por isso, a Universidade Chevrolet colocou o Sonic e seus principais rivais na mesma pista de testes.
A ideia era simples e poderosa: fazer a Rede perceber, a bordo do Sonic, aquilo que depois teria de explicar ao cliente — estabilidade, frenagem, comportamento dinâmico, conforto e segurança. Quando o vendedor sente a diferença, o discurso deixa de ser decorado. Vira convicção. A lógica responde a um problema conhecido do varejo automotivo: em segmentos saturados, vendedores frequentemente convivem com a sensação de que o concorrente sempre possui algum detalhe adicional na ficha técnica. A GM decidiu enfrentar essa ansiedade pela experiência. Colocou o carro na pista antes de colocá-lo na vitrine.
A estratégia ajuda a explicar outro movimento importante do lançamento, a integração entre vendas e pós-vendas. Pela primeira vez, equipes de serviço e gerentes de pós- venda participaram da capacitação desde o início do projeto. A mudança revela uma transformação mais ampla no negócio automotivo. O carro deixou de ser vendido apenas no momento da entrega. A experiência posterior passou a determinar a próxima compra.
Kleusner Lopes descreveu essa dinâmica como um “ciclo infinito”, no qual o pós-venda funciona como uma pré-venda contínua. Em outras palavras, fidelização deixou de ser consequência e passou a ser método.
Décio Farah, Superintendente da Abrac, deslocou a discussão para o ponto que costuma decidir o varejo automotivo: valor.
Com mais de quatro décadas no setor, ele sabe que lançamentos podem atrair público, mas raramente se sustentam apenas pelo brilho inicial.
Em um mercado mais pressionado, com novos concorrentes e margens sob vigilância constante, preço pode acelerar uma venda. Mas, valor sustenta uma marca.
“Dizer que ‘se tiver preço, vende’ é o caminho mais simples, porém o verdadeiro valor está na apresentação do produto e em seus diferenciais. É isso que sustenta a nossa gama no longo prazo”, ressaltou Décio.
Para a Rede Chevrolet, o Sonic exige mais do que entusiasmo de lançamento. Exige uma força de vendas capaz de defender o produto. Nesse sentido, treinamento deixa de ser custo de apoio e passa a ser instrumento de margem, reputação e permanência. O carro pode trazer o cliente à loja. A diferença está em quem consegue explicar por que ele deve fechar negócio.
Nesse novo ambiente, a concessionária precisa fazer mais do que repetir informações. Precisa interpretar o produto, antecipar dúvidas, mostrar valor e construir confiança. É aí que a capacitação da Universidade Chevrolet deixa de ser apoio e passa a ser vantagem competitiva. Para Décio, vender o Sonic exige transformar conhecimento em segurança, repertório em conversa e produto em escolha.
Talvez por isso o treinamento do Sonic tenha assumido formato de imersão. A GM espalhou a operação por Porto Alegre, São Paulo, Brasília e Recife, tentando garantir que toda a Rede Chevrolet estivesse preparada antes da chegada do carro às lojas.
Para se ter ideia, só em São Paulo foram dez sessões consecutivas, com aproximadamente 190 profissionais por dia.
Existe algo revelador nessa escolha. Em uma indústria historicamente fascinada por engenharia, potência e produto, a Chevrolet decidiu começar pelas pessoas. O Sonic pode ter sido desenvolvido por designers, engenheiros e estrategistas industriais. Mas a fabricante parece reconhecer que, no fim, quem define o sucesso de um lançamento continua sendo a capacidade humana de transformar especificações em confiança.
O carro chega pronto da fábrica. A venda continua sendo construída no contato diário com o consumidor na concessionária.
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