ENTREVISTA EXCLUSIVA: RICARDO FANUCCHI

Escrito por Rogério Nottoli

7 de agosto de 2026

OChevrolet Sonic nasceu como um projeto global, mas ganhou forma, acerto e personalidade no Brasil. À frente da engenharia da GM América do Sul, Ricardo Fanucchi acompanhou de perto o desenvolvimento do novo SUV cupê, um carro que combina design marcante, eficiência, tecnologia útil e calibração pensada para a realidade do consumidor brasileiro. Nesta entrevista exclusiva, ele explica por que o Sonic representa um novo momento para a Chevrolet, revela os bastidores técnicos do projeto e mostra como a engenharia brasileira ajudou a transformar o modelo em um dos lançamentos mais importantes da marca no País.

Revista Em Rede: Ricardo, quando você olha para o Sonic pronto, quais são os três pontos tecnicamente mais fortes do projeto e por que eles colocam o carro em outro nível dentro da categoria?

Ricardo Fanucchi:  O Sonic representa um novo momento para a marca Chevrolet. Ele traz muitas inovações tecnológicas e também conceituais. Do ponto de vista de projeto, eu resumiria isso em três pilares.

O primeiro é a execução do produto. Ele nasce dentro de uma concepção muito privilegiada, que combina toda a experiência da Chevrolet em carros compactos de sucesso com novas ferramentas digitais, como inteligência artificial e desenvolvimento preditivo, inclusive na linha de produção. Isso permitiu chegar a um carro com design, qualidade construtiva e nível de refinamento surpreendente nesse segmento.

O segundo pilar é a dinâmica veicular. O Sonic foi calibrado para entregar exatamente aquilo que o consumidor brasileiro valoriza: conforto no uso urbano, estabilidade e prazer ao dirigir. Suspensão, direção, estrutura e conjunto mecânico foram trabalhados de forma integrada para isso.

E o terceiro é a tecnologia aplicada ao que realmente importa. O Sonic traz soluções avançadas em conectividade, eficiência e assistência ao condutor, mas sempre com foco claro em utilidade para o cliente. Tudo foi pensado para melhorar a experiência de quem usa o carro no dia a dia.

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Você destacou que o Sonic alcança o melhor consumo rodoviário do segmento. Qual foi o maior segredo de engenharia para atingir esse resultado sem sacrificar desempenho e prazer ao dirigir?

Ricardo Fanucchi: Acho que o principal mérito aqui foi não buscar eficiência de forma isolada. Desde o começo, o objetivo era encontrar o melhor balanço entre consumo, desempenho e conforto.

O Sonic é um projeto global, liderado no Brasil, e foi desenvolvido para atender às necessidades do consumidor local. Então suspensão, direção, calibração de motor e câmbio, aerodinâmica, massa do veículo e até o gerenciamento eletrônico foram pensados em conjunto, e não como sistemas independentes.

Esse equilíbrio aparece nos números, mas principalmente na sensação ao volante. O carro entrega respostas muito boas em baixa, retomadas fortes e, ao mesmo tempo, consumo de referência no segmento: até 14,8 km/l com gasolina e 10,4 km/l com etanol no ciclo rodoviário do Inmetro.

Ou seja, não existe um truque. Existe um conjunto muito bem resolvido, com tecnologias avançadas e uma calibração muito cuidadosa para entregar eficiência sem sacrificar o prazer de dirigir.

Existe alguma solução técnica no Sonic que o consumidor talvez nem perceba, mas que faz enorme diferença em eficiência, conforto ou dirigibilidade?

Ricardo Fanucchi: Várias soluções do Sonic seguem exatamente essa lógica. Na engenharia, muitas vezes o que mais faz diferença é justamente aquilo que o cliente não percebe de imediato, mas sente no uso diário.

Um exemplo é o trabalho de evolução contínua em componentes e sistemas. Os faróis Full LED com projetor, por exemplo, oferecem alcance até 19% maior do que um sistema convencional. Muita gente enxerga isso como um detalhe de estilo, mas ele melhora efetivamente a visibilidade e a segurança.

Outro ponto importante está na gestão eletrônica do carro. O sistema de gerenciamento da bateria é mais inteligente, o Stop/Start ficou mais suave e eficiente e diversos ajustes foram feitos para reduzir consumo de energia e melhorar a percepção de refinamento.

A própria carroceria também foi pensada com foco em rigidez e massa. No fim, são esses detalhes somados que fazem do Sonic um produto muito moderno e tecnológico naquilo que realmente faz diferença no dia a dia do consumidor.

Hoje o consumidor busca tecnologia que funcione na vida real. Em quais áreas o Sonic mais evoluiu tecnicamente em relação aos projetos anteriores da Chevrolet?

Ricardo Fanucchi: Eu diria que a maior evolução está na forma como o Sonic aproveita as ferramentas de integração para colocar as tecnologias a serviço do uso real.

Na segurança, ele estreia a nova geração do Chevrolet Intelligent Driving, com câmera frontal de alta definição e cerca de 40% mais área de cobertura, ampliando a atuação dos assistentes de condução. Para chegar a esse resultado, também investimos em novos sistemas de simulação e validação, que nos permitiram desenvolver e calibrar essas tecnologias com mais precisão e robustez.

Na conectividade e na experiência a bordo, o Sonic traz um ambiente digital muito mais maduro, com Virtual Cockpit System, projeção sem fio, atualizações remotas, comandos à distância e um pacote de conveniência pensado para o cotidiano de grandes centros. Somamos isso também à ampliação da cobertura dos serviços OnStar, que passam a acompanhar o carro por oito anos, reforçando essa proposta de tecnologia útil no dia a dia.

E houve também uma evolução importante na própria forma de desenvolver e produzir o carro. O uso intensivo de ambiente virtual, inteligência artificial e processos mais avançados de manufatura ajudou a elevar o nível de precisão, qualidade e refinamento do produto. No total, estamos falando de um investimento de aproximadamente R$ 1 bilhão em engenharia, validação, modernização da linha de produção e treinamento de pessoas.

Do ponto de vista de engenharia, quais atributos do Sonic devem virar os principais argumentos da Rede Chevrolet na hora da venda?

Ricardo Fanucchi: Hoje o mercado está cada vez mais competitivo, com novos entrantes e propostas muito diversas. Nesse contexto, não basta olhar apenas para o produto isoladamente. Experiência de marca, atendimento, custo de manutenção, capilaridade da Rede Chevrolet e confiança no pós-venda têm um peso cada vez maior na decisão de compra. Dentro desse cenário, acho que a campanha foi feliz em traduzir o espírito do produto: é um carro que realmente não sai da cabeça.

O primeiro argumento é o design, porque nesse segmento ele tem um peso enorme na decisão de compra. E o Sonic entrega isso com muita riqueza de detalhes: assinatura luminosa em LED, proporções muito bem resolvidas, para-choque multipeças, interior com ar tecnológico e uma execução visual de categoria superior.

O segundo é que o Sonic surpreende também na forma como entrega aquilo que promete quando você começa a conviver com o produto. O carro entrega o mesmo nível de sofisticação ao rodar, com suspensão elevada para os obstáculos urbanos, direção bem calibrada, bom balanço entre performance e eficiência, o menor nível de ruído da categoria e uma série de soluções que reforçam essa percepção de cuidado no detalhe.

O ar-condicionado, por exemplo, foi dimensionado especificamente para a volumetria da cabine, e os revestimentos de painéis, apoios de braço e bancos seguem o mesmo padrão de materiais e acabamento que normalmente o cliente encontra em SUVs maiores da marca.

E o terceiro é o pacote. O Sonic chega já em versões topo de linha, muito bem equipado, com tecnologias de segurança, conectividade e conveniência que fazem sentido para o cliente. A partir daí, o consumidor escolhe o estilo que mais combina com ele: Premier, para uma proposta mais elegante, ou RS, para uma leitura mais esportiva.

O Sonic foi desenvolvido pela GM América do Sul e é produzido no Brasil. Quais características da engenharia nacional foram decisivas para criar um SUV compacto mais adaptado à realidade do nosso mercado?

Ricardo Fanucchi: O Sonic é um projeto global, mas o desenvolvimento ter sido liderado pela GM América do Sul garantiu o foco muito claro nas demandas locais.

Isso faz diferença porque a engenharia brasileira conhece profundamente o tipo de uso que o carro vai enfrentar aqui: piso irregular, obstáculos urbanos, uso intenso, preferência por eficiência energética e baixo custo de manutenção, sem abrir mão de conforto e dirigibilidade.

Além disso, contamos com uma estrutura muito robusta de desenvolvimento e validação. O Campo de Provas da Cruz Alta é o maior e mais completo do hemisfério sul, e o Centro Tecnológico de São Caetano do Sul reúne profissionais muito experientes em veículos compactos e flex. Isso permite um nível de ajuste fino muito grande, quase como a diferença entre comprar uma roupa pronta e vestir uma feita sob medida.

A GM exportou centenas de engenheiros brasileiros para centros globais da companhia nos últimos anos. O Sonic também pode ser entendido como um sinal de que a engenharia brasileira voltou a ocupar um papel mais relevante dentro da GM global?

Ricardo Fanucchi: Os centros de desenvolvimento da GM trabalham hoje de forma muito integrada. Temos profissionais de vários países atuando juntos, inclusive brasileiros em posições importantes fora do País e profissionais de outras regiões colaborando com os projetos daqui.

O que o Sonic mostra é a maturidade e a relevância da engenharia da GM América do Sul dentro desse ecossistema. É um projeto global liderado a partir do Brasil, com capacidade de reunir talentos, conhecimento e infraestrutura para entregar um produto com forte aderência ao mercado e relevância internacional.

Acredito muito na capacidade do engenheiro brasileiro porque ele é criativo, resiliente e sabe lidar com cenários complexos. Em um mercado como o nosso, isso vira uma competência muito valiosa para traduzir o desejo real do consumidor em produto.

Você comentou que o Sonic foi desenvolvido quase totalmente em ambiente virtual. Em termos práticos, como inteligência artificial e simulação mudaram a forma de criar um carro dentro da GM?

Ricardo Fanucchi: O Sonic representa um avanço importante nesse processo, porque ele nasce de uma lógica de desenvolvimento muito mais integrada, conectada e inteligente.

No desenvolvimento de carros do passado, você tinha áreas evoluindo sistemas do veículo em paralelo e, muitas vezes, só mais adiante apareciam conflitos ou oportunidades de melhoria, o que gerava retrabalho. Com ambiente virtual avançado e inteligência artificial, que já sugerem caminhos preditivos bastante avançados, conseguimos integrar decisões de design, aerodinâmica, arrefecimento, estrutura, segurança e dinâmica de forma praticamente simultânea.

Na prática, essas ferramentas sugerem caminhos otimizados e, quando unidas ao conhecimento e experiência dos nossos engenheiros, aceleram o desenvolvimento, reduzem a necessidade de protótipos e permitem usar recursos de forma mais inteligente.

Usamos essas novas ferramentas para tomar decisões melhores, integrar mais rapidamente as áreas e chegar a um produto mais maduro, com mais qualidade e assertividade ao longo do desenvolvimento.

Hoje os ciclos de desenvolvimento estão muito mais rápidos do que no passado. Como a engenharia consegue acelerar projetos sem comprometer qualidade, segurança e confiabilidade?

Ricardo Fanucchi: Eu vejo simulação, digitalização e integração com software como os principais alavancadores para encurtar o tempo de desenvolvimento, sem comprometer qualidade, segurança e confiabilidade, e ao mesmo tempo otimizar os custos de projeto.

As ferramentas virtuais permitem antecipar decisões críticas ainda nas fases conceituais, com modelos virtuais e co‑simulação mecânica, eletrônica e de software, reduzindo descobertas tardias em protótipo físico; aumentar a robustez de projeto, porque conseguimos explorar muito mais cenários de uso, variabilidade de produção e condições extremas no mundo virtual do que seria viável em teste físico; integrar requisitos de hardware e software desde o início; reduzir iterações físicas e retrabalho: fazemos “right‑first‑time” com muito mais frequência, reduzindo ciclos de teste/fixação/reteste e o número de protótipos.

Além de criar fluxos mais paralelos e integrados: equipes de hardware, software e manufatura trabalham em cima dos mesmos modelos digitais, e reusar modelos e bibliotecas digitais entre programas e regiões, o que reduz o tempo de validação.

Em resumo, quando bem governadas, essas ferramentas não são apenas automação; elas mudam o modelo de desenvolvimento para um processo que eleva a qualidade percebida pelo cliente e reduz lead time, sem comprometer nossos pilares de confiabilidade e segurança.

Durante o desenvolvimento, houve algum momento em que a equipe percebeu que o Sonic estava se tornando um projeto maior do que um simples lançamento de produto?

Ricardo Fanucchi: Todo projeto na GM nasce de pesquisa de mercado, e nós identificamos uma oportunidade muito clara de ter um SUV com proposta mais jovem, urbana e aspiracional nesse espaço entre Onix Activ e Tracker.

Desde o início, a proposta foi desenvolver um produto com identidade muito própria, mesmo partindo de uma arquitetura modular global. Do ponto de vista de engenharia, isso significou trabalhar o Sonic de forma muito específica para a proposta que queríamos entregar. Houve trabalho específico em carroceria, materiais, dinâmica veicular, calibragem de motor, direção e suspensão. Isso fez com que ele se tornasse, na prática, um produto novo em proposta e execução.

E existe um símbolo forte disso: ele é o primeiro no mundo a estrear a nova identidade global da Chevrolet em SUVs. Isso mostra a relevância estratégica global do projeto para a marca.

Depois de tantos projetos importantes na sua trajetória, houve algum momento durante o desenvolvimento do Sonic em que você percebeu: “Esse carro vai marcar a história da GM no Brasil”?

Ricardo Fanucchi: A GM acabou de completar 100 anos no Brasil, e quando você olha essa trajetória percebe o quanto a empresa ajudou a impulsionar a industrialização do País e a transformar a vida das pessoas por meio da mobilidade.

Ao longo desse período, a Chevrolet lançou produtos que ajudaram a redefinir categorias e a popularizar tecnologias. O Sonic chega em outro desses momentos importantes, porque nasce em um cenário em que os SUVs dominam o mercado e traz uma proposta acessível, inteligente e muito bem executada para esse segmento.

Isso ficou muito claro também nas clínicas com o público-alvo ao longo do desenvolvimento: ele não traz apenas um design marcante inspirado na nova linguagem global da marca. Ele traz também um nível de execução, tecnologia de desenvolvimento e qualidade produtiva que normalmente associamos a veículos de categoria superior.

Então, em vários momentos, ficou claro para nós que estávamos diante de um carro com potencial para marcar uma época da Chevrolet no Brasil. E isso também passa pelo papel estratégico do Sonic dentro da marca: atrair um novo perfil de consumidor e, ao mesmo tempo, oferecer uma opção natural de evolução para o cliente fiel que está em ascensão.

Ricardo, se você tivesse que resumir o Sonic em uma visão puramente técnica, como engenheiro, que tipo de carro ele é e o que ele representa para o futuro da Chevrolet no Brasil?

Ricardo Fanucchi: Eu diria que o Sonic é um SUV compacto de estilo cupê muito bem resolvido, porque consegue combinar uma proposta visual mais emocional e aspiracional com atributos concretos de uso, como posição de dirigir elevada, boa altura em relação ao solo, dirigibilidade equilibrada, eficiência e praticidade para o dia a dia.

Do ponto de vista técnico, esse conceito de SUV de estilo cupê não foi tratado só como linguagem de design. Ele influenciou proporções, aerodinâmica, acerto dinâmico e a própria forma de posicionar o carro dentro da gama. Ou seja, existe uma coerência entre aquilo que o Sonic comunica visualmente e aquilo que ele entrega na prática.

Ele também tem um papel estratégico importante porque amplia a presença da Chevrolet no segmento mais relevante do mercado. Com a chegada do Sonic, a marca reforça ainda mais a sua gama de SUVs e crossovers, com propostas diferentes para diferentes perfis de cliente.

E talvez o principal seja que ele não foi pensado apenas para os dias de hoje. O Sonic nasce com uma base técnica e um processo de desenvolvimento que permitem acompanhar a evolução do mercado ao longo do tempo. É um carro preparado para continuar relevante à medida que o consumidor for amadurecendo novas expectativas e novas demandas tecnológicas.

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